sábado, 27 de abril de 2013

Como esquecer?

"Como é que se esquece alguém que se ama?
Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que, nos custa mais lembrar que viver?
Quando alguém vai embora de repente como é que se faz para ficar só?
Quando alguém morre, quando alguém se separa, como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já não está lá?
As pessoas têm de morrer, os amores de acabar.
As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar.
Sim, mas como se faz?
Como se esquece?
Devagar. É preciso esquecer devagar.
Se uma pessoa tenta se esquecer de repente, a outra pode ficar ali presa para sempre.
Podem pôr-se processos e ações de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar na maior deprê da sua vida, mas não se pode despejar a pessoa de repente. Simplesmente porque elas não saem de lá. Estúpidas! ¬¬'
É preciso aguentar.
Sei que ninguém está disposto a isso, mas é preciso aguentar.
A primeira parte de qualquer cura é aceitar que está doente.
É preciso paciência.
Mas o pior, é que vivemos tempos imediatos, em que ninguém mais aguenta nada.
Ninguém aguenta a dor.
De cabeça ou de coração.
Ninguém aguenta estar triste.
Ninguém aguenta estar sozinho.
Tomamos conselhos e comprimidos.
Procuramos escapes e alternativas.
Mas a tristeza só há de passar, entristecendo-se.
Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrar esse alguém. Quem procura evitar o luto, o prolonga no tempo e o desonra na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada.
É uma dor que é preciso primeiro aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa, esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que chega a nos tirar até o juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados, se tivessem apenas o peso que têm em si: isto é, se os livrássemos da carga que lhe damos, aceitando que não tem solução.
Não adianta fugir da seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injeção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença do que morreu. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a cabeça, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais nós teremos que enfrentar depois. Fica tudo à nossa espera. Tudo se acumula na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte.
Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos de cerveja, depois são pagos amargamente com as lembranças que mais nos doem.
Mas o mais difícil de aceitar é que há lembranças e amores que necessitam do afastamento para poderem continuar.
As vezes é preciso exilar-se por um tempo, para que o amor possa continuar. Deixar de vê-lo, para ter vontade de ver depois.
As vezes a presença do objeto amado provoca a interrupção do amor.
É esta a complicação, o curto-circuito, a contradição que as vezes está ali presente, ali, na cara do coração, impedindo-o de continuar, e que nunca enxergamos.
As pessoas nunca deveriam morrer, nem deixarem de se amar, nem separar-se, nem esquecer-se, mas morrem e deixam e separam-se e esquecem-se. Custa muito aceitar que os mais velhos, que nos deram vida, tenham de dar a vida para poderem continuar vivos dentro de nós.
Mas é preciso aceitar.
É preciso aceitar.
É preciso sofrer, dar urros, murros na mesa, não perceber.
E aceitar.
Se as pessoas amadas fossem imortais perderíamos o coração.
Perderíamos a religiosidade, a paciência, a humanidade até.
Há uma presença interior, uma continuação em nós de quem desapareceu, que se ressente do confronto com a presença exterior. 
É por isso que nunca se deve voltar a um lugar onde se tenha sido feliz. Todos os lugares se tornam realmente feios, fisicamente piores, à medida que se enraízam na memória que guardamos deles no coração.
Regressar é fazer mal ao que se guardou.
Uma saudade cuida-se.
Nos casos mais tristes, como o meu, o jeito é separar da pessoa que causa essa saudade que mata por dentro. Continuar com a pessoa, ou apenas vê-la pode desfazer e destruir a beleza do sentimento. 
As pessoas que se amam mas não se dão bem, só conseguem amar-se bem quando não se dão. Repito: é complicado e contraditório, mas infelizmente é a verdade.
Mas a questão é: Como esquecer? Como deixar acabar aquela dor?
É preciso paciência. É preciso sofrer. É preciso aguentar.
Há Grandeza no sofrimento.
Sofrer é respeitar o tamanho que teve um Amor.
No meio do remoinho de erros que nos revolve as entranhas de raiva, do ressentimento, do rancor, temos de encontrar a raiz daquela paixão, a razão original daquele amor.
As pessoas morrem, magoam-se, separam-se, fazem os maiores disparates com a maior das facilidades. Para esquecê-las é preciso chorá-las primeiro. Esta é uma verdade tão antiga que espanta reparar em como ainda temos esperanças de contorná-la. 
Sofrer por não conseguir esquecer alguém que se ama, não é histeria, nem imaturidade, nem ignorância, nem fingimento. Sofrer por não conseguir esquecer alguém que se ama, só se torna histeria, só é imaturidade e ignorância e etc, quando nós, os modernos, os cools, os covardes, os que se dizem livres e independentes, os "tanto faz" e os anestesiados, fingem que nada está acontecendo, com medo de enfrentar a verdade.
Para esquecer uma pessoa não há vias rápidas, não há substitutos, não há calmantes, não há Ilhas Canárias, não há livros de poesia - só há lembrança, dor e lentidão, com uns breves intervalos pelo meio para retomar fôlego. 
Esta dor tem de ser aguentada e bem sofrida com paciência e fortaleza. Sair correndo desesperadamente ao encontro de outro alguém, seja quem for, é uma reação natural, mas não serve de nada e faz pouco de nós mesmos.
A mágoa é um estado natural.
Tem o seu tempo e o seu estilo.
Tem até uma estranha beleza.
Nós fomos feitos para aguenta-la.
Podemos arranjar as maneiras que quisermos de odiar quem amamos, de nos vingarmos delas... Mas isso não faz bem nenhum. Tudo isso conta como lembrança, tudo isso conta como uma saudade contrariada, enraivecida, embaraçada por ter sido apanhada na via pública, como um parasita de coração, uma peste inexterminável: uma saudade de pernas para o ar.
O que é preciso é igualar a intensidade do amor a quem se ama e a quem se perdeu.
Para esquecer é preciso dar algo em troca.
Os grandes esquecimentos saem sempre caros.
É preciso dar tempo, dar dor, dar com a cabeça na parede, dar sangue.
E mesmo assim, mesmo magoado, mesmo sofrendo, mesmo conseguindo guardar na alma o que os braços já não conseguem agarrar, mesmo esperando, mesmo aguentando como nunca achou que aguentaria, mesmo passando os dias vestida de preto, aos soluços, de joelhos, mesmo com muita paciência e muita má vontade, mesmo assim é possível que não se consiga esquecer nem um bocadinho.
Podemos nos esquecer quem nos vem à lembrança, aqueles de quem nos lembramos de vez em quando, com dor ou alegria, tanto faz, com tempo e paciência, aqueles que amamos com paciência, aqueles que amamos sinceramente, que partiram, que nos deixaram, vazios de mãos e cheios de saudades, esses doem e depois esquecem mais ou menos bem.
Mas e quando esse alguém está sempre presente?
Quando é tarde.
Quando já não se aguenta mais.
Quando já é tarde para voltar atrás, quando percebemos que há esquecimentos tão caros, que nunca se podem pagar.
Como é que se pode esquecer o que só se consegue lembrar?
Aí está o sofrimento maior de todos.
O luto verdadeiro."

COMO ESQUECER - Texto de Miguel Esteves Cardoso, super adaptado por mim Mandy Brum.

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